Um problema de tradução em ‘Um Limite Entre Nós’

Quando as produtoras decidem o nome dos títulos norte-americanos para o português, deveriam ser mais criteriosos, não apenas para escolher um título que combine com a história e que seja fiel à tradução, mas que também mantenha a essência do que é o filme.

Em Um Limite Entre Nós (Fences, 2016), que concorre ao prêmio de melhor filme e de melhor roteiro adaptado, temos um exemplo claro de que uma tradução pode perder todo o sentido da narrativa. Se traduzirmos literalmente do português, o título deveria ser Cercas. E combinaria muito mais com a proposta do longa.

No decorrer da história, acompanhamos o personagem Troy Maxson – interpretado por Denzel Washington – uma promessa do baseball, que abandonou os campos e agora vive como lixeiro em Pittsburgh. Baseado em uma peça teatral, o filme deixa evidente muitas características dos palcos. Possui uma fotografia interessante e apesar do ritmo lento, somos atraídos pela profundidade dos conflitos vivenciados pelos personagens.

Mas o maior trunfo do filme é certamente a atuação de Denzel, que concorre ao Oscar de melhor ator, e de Viola Davis, franca favorita ao prêmio de melhor atriz coadjuvante, que interpreta a esposa de Troy, Rose. Os dois mostraram personalidade ao extremo nas atuações dando ainda mais dramaticidade e profundidade aos personagens. Sem os dois, o filme perderia o sentido, serio apenas um amontoado de diálogos. Mas os atores deram outra cara para a história, revelando os detalhes que formaram o caráter de cada personagem.

Quando se assiste Um Limite Entre Nós, pode-se demorar a compreender o significado da narrativa. Mas existe um diálogo, entre Troy e Bono (colega de trabalho e melhor amigo do principal, interpretado por Stephen Henderson) em que nossas mentes são clareadas. Troy precisa construir uma cerca no quintal da casa, com ajuda do filho Cory, com quem tem diversos conflitos, e essa cerca no entanto é a metáfora perfeita dos relacionamentos na vida do personagem principal.

O filme na realidade não é sobre racismo, ou sobre um lixeiro tentado viver uma vida melhor. É sobre as cercas que somos capazes criar entre nossos relacionamentos. Sobre nossas tentativas acirradas de manter quem amamos por perto. Sobre ferir, mesmo que sem a intenção, as pessoas que mais prezamos. Sobre deixar que nossas personalidades duras criem barreiras para o convívio com outros. É ainda sobre como permitimos que nosso passado e nossas dificuldades formem tais cercas.

Troy Maxson criou essas cercas não apenas no seu envolvimento com a esposa. Ele criou com os filhos, principalmente com Cory, o que dá ainda mais intensidade para os conflitos do longa. É por isso que perdemos bastante do sentido da história quando traduzimos o título. Claro que o nome em português ainda mantém um pouco do significado, mas o original carrega em si um dos efeitos principais deste filme, já deixa a pista para o grande envolvimento da narrativa: as cercas que existem entre nós.

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