A Chegada | Crítica

E se pudéssemos mudar toda a nossa vida?

Quando se decide fazer um filme de ficção científica e abordar uma invasão alienígena você tem dois caminhos: ou se cai no lugar-comum do apocalipse – quando os Et’s decidem exterminar com a vida na Terra – ou se opta por abordar uma interação mais pacífica, de convivência e troca de conhecimentos – semelhante ao que ocorre em E.T.: O Extraterrestre.

Em A Chegada (Arrival, 2017), o diretor Denis Villenueve parece ir pelo segundo caminho. A estratégia deu certo e o filme está concorrendo em oito categorias no Oscar, incluindo melhor filme, direção, roteiro original, mixagem de som. O longa é também o mais injustiçado pois viu a atriz Amy Adams ficar de fora da lista de indicadas ao prêmio de melhor atriz.

Quando os aliens desembarcam na Terra, os humanos fazem um grande caos. Pensam que é o fim da humanidade. As autoridades tentam entrar em negociação com os seres. O grande empecilho: a comunicação.
Para resolver a questão, o exército convoca a professora de linguística, Louise Banks, interpretada de forma brilhante pela injustiçada Amy Adams, para conseguir entrar em contato com o novo povo. Em parceria com o astrofísico Ian Donnely, vivido pelo ator Jeremy Renner (isso mesmo, o Gavião Arqueiro de Os Vingadores).

Louise vive atormentada pela perda da filha. Vive solitária. E dedica-se a compreender a linguagem dos visitantes em nosso planeta. Esse fato, poderia levar o filme para uma discussão sobre o poder da comunicação e importância da linguística. A direção do filme, que trabalha muito bem a fotografia, a trilha sonora e a mixagem de som, também torna a ciência bastante acessível e plausível, mostrando que comunicar é uma das grandes chaves para resolução de conflitos.

Mas o longa vai muito além e esse passo torna a ficção científica muito mais bela e agradável. No decorrer da trama, a professora Banks vai compreendendo que a nova linguagem que está tentando decifrar não funciona da mesma forma que a nossa. Ela envolve o tempo. Ela não se situa no mesmo plano temporal que os idiomas a que estamos acostumados.

Sem maiores revelações, Louise vai compreender que toda aquela narrativa, todo aquele caos tinha como propósito mostrar que ela, mesmo que chegasse a compreender todo o seu futuro, tomaria as mesmas escolhas que fez no passado. Não é predeterminação das nossas escolhas. A personagem compreende, que apesar da dor, o caminho que antecede vale muito a pena.

De certa forma, Louise lembra o fazendo Paulo Honório, personagem-narrador de São Bernardo, livro de Graciliano Ramos. Infeliz, abandonado e deprimido, a figura chega à conclusão que se a vida lhe desse uma segunda chance, ele faria tudo da mesma forma. “Não consigo modificar-me, é o que me aflige”, diz o narrador.
A personagem de Amy Adams percebe que essa é a grande questão de sua vida. “Se você pudesse ver toda sua vida, do começo ao fim, o que você mudaria?” é norte do filme. Louise vai perceber que cada ponto da vida dela, independente dos bons ou maus momentos, foram fundamentais para trazê-la até aquele ponto. Cada situação vivida era necessária. E vital para a resolução do conflito.

A Chegada é um dos raros filmes de ficção científica que conseguem fugir do lugar-comum do gênero e provocar uma reflexão poética (outro exemplo que pode ter feito isso é Interestelar, mas a reflexão se perde em meio a uma surra científica). Uma pena que talvez a academia não dará a devida atenção ao filme, por se tratar justamente de uma ficção científica. Lamentável, pois poderia ser a primeira vez que Et’s ganhariam Oscar de melhor filme.

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