As muitas faces de Fragmentado – Crítica

É possível construir um longa-metragem em que título e produção tenham uma extrema combinação com a trama do filme? Em Fragmentado (Split, 2011), nota-se que as escolhas e os caminhos escolhidos para a condução da narrativa deixaram o filme com diversas facetas, tanto para análise quanto para apreciação, o que garante uma produção com certa qualidade, apesar de deslizar em alguns excessos.

Na realidade, é possível que a ideia de deixar o filme com diversas “faces” tenha sido uma decisão proposital do diretor M. Night Shyamalan, que retorna ao suspense, gênero que o consagrou em 1999 com O Sexto Sentido. Dar caras diferentes a um filme que trata sobre uma pessoa que sofre de surto psicótico de múltiplas identidades parece ter sido uma estratégia orquestrada pela produção e que foi acertada até certo ponto.

Em Fragmentado acompanhamos a história de três garotas sequestradas por Kevin (James McAvoy), um homem que sofre de TDI – Transtorno de Identidades Múltiplas. Os excessos do longa começam na quantidade de personalidades que coexistem dentro de Kevin: 23, algo psicologicamente impossível (na realidade, a própria TDI não está catalogada pela psicologia como um transtorno, propriamente dito). Mas a história torna-se bastante convincente, e por vezes, até envolvente, principalmente pela narrativa de Casey Cooke (Anya Taylo-Joy), uma das moças sequestradas e que, teoricamente, não estava nos planos do rapto. No entanto, a garota é a que possui história de vida mais conturbada, algo que foi fundamental para que ela se tornasse a principal chance de sobrevivência das adolescentes.

Uma boa parte do filme o espectador é facilmente envolvido pela história do longa. É interessante acompanhar as transformações de Kevin – e também a boa atuação de McAvoy. Os esforços de sua terapeuta, a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), para compreender e, até certo ponto, defender as transformações do psicótico, tornam-se um bom ponto de reflexão. O passado traumático de Casey e o quanto aquilo afetou a personalidade, também.

Esses são alguns dos focos narrativos que o diretor Shyamalan poderia ter se concentrado. Como em uma encruzilhada, ele poderia ter partido para possíveis finais, depois de ter realizado um bom desenvolvimento, já que possui certa causalidade, mesmo com os exageros. O quanto uma infância vivida em meio a abusos (uma das razões apontadas para o distúrbio de Kevin) afeta a personalidade do ser humano era um dos caminhos para o desfecho. E nesse ponto seria possível analisar tanto o sequestrador quanto a sequestrada. Ou então poderia ter partido para uma outra direção, que seria uma análise mais profunda da questão do crime cometido por uma pessoa psicologicamente transtornada. Aqui, poderia até lembrar o longa Precisamos Falar Sobre Kevin (2011), que levantou a questão da “gênese” do psicopata (algo de nascimento ou formação?).

Mas a produção de Fragmentado acabou optando por se manter fiel ao gênero e acrescentar a pitada de terror. No fim, o caminho escolhido foi uma situação que elevou a dose de excessos do filme e o manteve mais distante das discussões levantadas no decorrer da trama. O surgimento de uma personalidade praticamente indestrutível não só deixa o filme mais exagerado, como consegue quebrar um pouco do clima de mistério e reflexão, que foi tratado nos 117 minutos de narrativa.

No fim das contas, Fragmentado, assim como o personagem principal, consegue ser um longa de múltiplas personalidades a serem assistidas. Trata-se de um bom filme, com uma atmosfera de suspense bem planejada, com a trilha sonora deixando o clima bem típico do gênero. Possui boas tramas que poderiam ter conduzido a ótimos finais. No entanto, os exageros da trama reduzem um pouco o brilho do que poderia ter sido um filme ainda melhor. Bastava caminhos diferentes terem sido escolhidos. Mas como não é possível prever tudo o tempo todo, fica-se com um suspense mediano.

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