O pensamento de uma época em Vigilante do Amanhã

O cinema possui a capacidade de ser uma representação da cultura e do pensamento de uma determinada época. Um filme não apenas representa signos e as relações dessa cultura, como ele é em sim mesmo, uma pequena amostra do que pessoas de uma certa comunidade pensam e vivem sobre alguma situação.

Nesse sentido, durante os anos 80 e parte dos anos 90, diversos filmes foram lançados retratando um futuro em que os seres humanos teriam que guerrear com as tecnologias avançadas e por ele mesmo criadas. As máquinas se desenvolveriam de tal forma que tomariam o lugar de seus criadores e passariam a combatê-los. Assim surgiram grandes longas da ficção científica do período, a exemplo de Exterminador do Futuro, Matrix, Blade Runner – o caçador de androides e Robocop.

Mas agora vivemos os anos 2000, então uma nova mentalidade pode ter surgido e influenciado as narrativas da ficção científica. Estamos na época das redes sociais, da interação online, dos smartphones e da tecnologia na palma da mão. Não vivemos sem internet e é impossível imaginar um mundo desconectado. Vivemos a era da interconexão. Assim, faz todo sentido que um filme como Vigilante do Amanhã (Ghost in the Shell, 2017) desponte como um representante do pensamento da nossa época refletido no gênero cinematográfico mencionado.

Baseado em uma série de mangás e de animações, a história se passa em mundo futurista onde humanos e máquinas convivem de forma “harmoniosa” (pelo menos, um grupo não tenta combater o outro). O convívio é tanto, que é cada vez mais raro encontrar um ser humano que não tenha passado por um melhoramento. É o tempo dos ciborgues, da tecnologia como melhoramento. E também das conexões humanas elevadas a um nível mental. Nesse contexto, é criada a ciborgue perfeita: Major (Scarlet Johason, que tem uma atuação muito próxima de Lucy) possui corpo totalmente robótico e sintético, mas a mente é humana, afinal, um cérebro foi extraído e colocado no corpo artificial.

A partir daí, o filme passa por divagações filosóficas interessantes e cria uma atmosfera de ação extraordinária, que irá agradar principalmente os fãs do gênero. Mas o grande lance do longa não são tanto as divagações de seus personagens (por melhores que elas sejam), a narrativa do mistério envolvendo o passado de Major ou cenas de combate.

Impressiona em Vigilante do Amanhã a qualidade visual com que foi montado. O diretor Rupert Sanders (primeiro filme dele no gênero de ficção científica) abusa dos planos abertos e gerais, que mostram o “futuro” com toda a sua força: a cidade é constituída de prédios e invadida por uma onda de propagandas luminosas, que não seria exagero dizer em poluição visual. Mas que na forma como foi gravado, o longa permanece com uma belíssima fotografia, com as tomadas abertas impressionando os olhos de quem assiste.

A partir daí, temos um filme com uma história bem desenvolvida, apesar de alguns clichês próprios do gênero, com um desenvolvimento filosófico, que levam aos questionamentos sobre o que seria a vida em comunidade e convivência entre humanos-máquinas. Um filme de ação e ficção que expressa sobretudo o pensamento de bom convívio com as tecnologias inventadas pelo ser humano, que marca a geração e a cultura dos tempos que vivemos. Talvez por isso que Vigilantes do Amanhã seja uma boa opção para as salas 3D e IMax. Vale a pena pagar mais caro para não perder um detalhe.

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