As inconfidências de Joaquim

O homem por trás mito. Quem foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier antes de ser um dos principais nomes da Inconfidência Mineira, que no século XVIII tentou tornar livre a capitania das Minas Gerais, do governo imperial português? O filme Joaquim (2017), dirigido por Marcelo Rodrigues é uma tentativa de contar a história de Tiradentes, não relatada nos livros que narram a revolta.

Apesar de pouco divulgado, o longa-metragem é a única produção brasileira que irá participar da competição oficial do Festival de Berlim 2017. Com uma fotografia bem trabalhada, mostrando o inóspito território mineiro da época, o filme trabalha bem a figura do homem Tiradentes, seus sonhos e desejos, bem como as frustrações diante de um governo corrupto e as razões que o levaram a se envolver com a Inconfidência.

A história mostra o militar Joaquim (Julio Machado) almejando uma promoção na companhia militar da capitania das Minas, sobretudo com o objetivo de comprar a liberdade da escrava Preta (Isabél Zuaa), sua grande paixão. O Império Português governa a colônia dos Brasis com mão de ferro, com um rigor ainda maior para o principal ponto de extração de ouro. No entanto, para conseguir mudar o cargo, o militar precisa cumprir uma missão no mínimo arriscada: encontrar ouro no temido “Sertão Proibido”. Em um período que a extração do mineral começava a escassear, Joaquim trava uma verdadeira jornada em busca do metal. O interesse é bem claro: ele quer Preta, custe o que custar.

É com essa narrativa que a produção vai construindo o caráter de Joaquim. O considerado mártir da Inconfidência era um homem comum, que desejava nada mais que ouro, glórias e mulheres. É só quando a sua busca é frustrada que ele percebe a pesada mão imperial a sugar e sufocar toda a vida na colônia.

Historicamente é um filme sensato. Não brinca com o mito de Tiradentes e deixa bastante evidente que ele foi um bode-expiatório. Desde a cena inicial, o filme se pergunta “O engraçado que entre todos os que planejaram o movimento, só eu perdi a cabeça”. A dúvida sobre quais foram os reais papeis do personagem histórico permanecem, mas o longa trata de não cair no senso de heroísmo.

Pelo contrário, mostra que até certo ponto Tiradentes foi Joaquim. Isso significa que o personagem é construído de forma comum, um homem colonial com seus interesses humanos, nada heroicos – ou nas próprias palavras do personagem “ladrão, corrupto e bandido”. Mas foram esses desejos que o levaram a abrir os olhos para a exploração da Coroa Portuguesa.

O filme de Marcelo Rodrigues peca ao prolongar demais alguns pontos que poderiam ser encurtados. E é impressionante o tanto que as produções brasileiras precisam melhorar sonoramente, principalmente na questão da captação das falas de seus personagens.

Por outro lado, o longa é bem trabalhado quando deixa evidente, além da história do personagem, a formação cultural e social brasileira. Brancos, Negros e Índios são colocados em cena, como uma forma de mostrar as fraturas sociais que desde aquele período já vigoravam e que mantêm fortes ecos nos dias de hoje.

Com o objetivo de contar a história de Joaquim e não de Tiradentes, a produção opta por não incluir tanto da Inconfidência Mineira, suas maquinações, desdobramentos e contradições. Apesar de aproveitarem o feriado que celebra a data para lançar o filme, Joaquim é muito mais sobre seres humanos e suas interferências que vieram a se tornar o Brasil nos dias atuais.

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